Descobertas do Dr. Paulo Câmara, da UnB, durante visita ao Herbário do Museu Nacional, no Rio de Janeiro

Briófitas constituem o segundo maior grupo de plantas terrestres, estando atrás apenas das angiospermas. Sendo o único grupo terrestre a possuir seu gametófito dominante, o grupo possui muitas funções ecológicas, sendo importantes bioindicadores da qualidade do ar e água. Embora tão vasto e tão importante, o grupo ainda permanece pouquíssimo explorado, em particular no Brasil, onde não mais de uma dezena de pesquisadores se dedicam ao seu estudo.

Karl Johan August Müller (1818-1899) de Halle (Alemanha), foi o botânico que mais descreveu espécies de briófitas em toda a história. Seguindo um conceito mais tipológico de espécie, onde pouca variação do typus era tolerada ele descreveu muitas espécies novas.

Infelizmente as coleções originais estudadas por ele, incluindo os typus nomenclaturais foram totalmente destruída durante o bombardeio do herbário de Berlim em 1943, durante a segunda guerra mundial. Desde então, a busca por duplicatas que possam existir em outros herbários tem sido uma obrigação de todo taxonomista de briófitas que lida com espécies descritas por Müller (na prática todos nós). Com sorte algumas podem ser encontradas em herbários como Paris, Helsinque, Munique ou Viena, mas na maioria das vezes o que acaba sendo constatado é a perda desse material, o que inclui muitas espécies descritas para o Brasil. O estudo dos typus de Müller tem sido um verdadeiro impedimento taxonômico e um grande desafio.

Durante nossa visita, financiada pelo INCT-Herbário Virtual, ao herbário do Museu Nacional no Rio de Janeiro (R), o herbário mais antigo do Brasil, foram localizadas diversas duplicatas de typus de Müller, muitas consideradas perdidas para sempre. A maioria era de coletas feitas por Ernst Ule no Rio de Janeiro, Minas Gerais e Goiás.

Durante meu doutorado visitei os mais importantes herbários da Europa em busca de typus de Müller, apenas para lista-los na minha tese como “Type not seen! Probably lost during the bombing of Berlin in 1943”, agora pude ver que alguns deles estavam aqui, no Rio de Janeiro.

Da mesma forma que eu me surpreendi, creio que essa descoberta vai surpreender a muitos, no Brasil e no exterior. Para estuda-los e  lista-los, uma pequena força-tarefa foi montada com a participação de três doutores [eu (UnB), Dra. Micheline Carvalho-Silva (UnB), Dr. Denilson Peralta (IBt)] e de uma aluna de mestrado, Sulamita Dias (UERJ), além de um apoio logístico para fotografar e listar tudo de nosso amigo Osvaldo, e do financiamento mencionado.

Embora um artigo listando essas descobertas já esteja em elaboração pelo nosso grupo, isso é apenas um começo, pois muito ainda resta a se estudar naquela coleção, tais como os diversos nomes In Schedulla que precisam ser avaliados, além de toda a coleção de hepáticas. Lembremos ainda que são coleções históricas (cujas identificações precisam ser atualizadas) e que podem nos contar muito sobre a vegetação do Brasil no século 19, o que, por sua vez, pode nos dar muitos subsídios para as políticas de conservação nos dias de hoje.

 

Dr. Paulo Câmara. Ph.D.

Curador da Coleção de Briófitas do Herbário UB

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